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A música e a vida: quando as nossas origens chamam por nós

Quinta-feira, 30.05.13

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:47

A responsabilidade de um "novo rumo" tem de se iniciar com um compromisso com os cidadãos e sem equívocos políticos e culturais

Terça-feira, 21.05.13

 

A possibilidade de se abrir uma janela e de se refrescar o ar deste país entregue a grupos com agendas já identificadas e percebidas e que não servem os interesses do país e dos seus cidadãos, seria um bom sinal.

Mas seja qual for a janela e o novo ar, é bom esclarecer desde o princípio que a equipa que for escolhida (e só pode ser pelos cidadãos) estabeleça um compromisso claro com os cidadãos.

 

Já o disse aqui, nunca acreditei na revolução dos cravos, mas absorvi desde criança, e de forma profunda, uma cultura democrática. Esta é a base. Não é direita-esquerda ou falsas dicotomias. É o respeito por si próprio e pelos outros, a empatia como a base da interacção. Também tem a ver com a cultura cristã profundamente enraízada na minha família, e não apenas na palavra, mas na sua acção diária. Mas tem muito mais a ver com a minha percepção desde o início que o convívio social saudável só se pode conceber numa base de igualdade na dignidade e na liberdade, na tolerância, no respeito mútuo, no valor intrínseco e não negociável de cada vida humana. A prioridade é a vida, mas a vida com dignidade. É isso que nos distingue da barbárie.

 

Por todos os livros que li na primavera marcelista e pelo clima de rebeldia que se sentia no ar e que pensava nos poderia levar, de forma gradual, a uma democracia moderna e civilizada (nos valores que referi acima), nunca acreditei na revolução dos cravos. A minha primavera era outra, só acredito em soluções inteligentes, cultas, graduais.

Em adolescente li Marx e Engels (resumidos, porque não aprecio calhamaços), e outros livros biográficos sobre visionários, loucos e psicopatas como Estaline, Mao Tsetung, Hitler e Himmler, portanto para mim eram todos do mesmo saco cultural e mental: os ditadores, venham de onde vierem, têm a mesma base amoral da lógica do poder e da morte, da destruição bárbara, são incultos e doentes mentais.

Agora imaginem a minha surpresa quando no liceu, pelos meus 16, 17 anos, deparei com o ambiente deprimente em que se defendiam personagens como Lenine, Estaline ou Mao Tsetung... Por ali planei nesse ano de 75 sentindo-me uma inadaptada, escapando à gritaria das RGAs e um dia até a uma invasão da Copcon a rodear o liceu de G3 na mão. Felizmente 76 trouxe o sossego dos Cívicos e voltei às origens por um ano. Quando regressei para a faculdade já os ânimos estavam mais calmos e só me esperava o desgosto de Camarate, em 80, o fim da esperança democrática.

 

A partir daí, a possibilidade de uma cultura verdadeiramente democrática, de uma democracia de qualidade (acesso universal a uma educação de qualidade; acesso a uma informação de qualidade e comunicação fiável e transparente; partilha de responsabilidade e participação cívica; justiça de qualidade; eficiência dos serviços; liberdade de concorrência; todos os equilíbrios que mantêm a democracia), foram sendo substituídos por uma cultura de clubismo partidário, de má utilização dos recursos públicos, de novo-riquismo cultural, do sucesso fácil, dos grupos favorecidos, de interesses ocultos, e de tudo o que já se diagnosticou até à exaustão e que permanece intocável.

 

Nunca votei PS. Votei AD de Sá Carneiro e Freitas do Amaral. Depois de Camarate, o PSD morreu para mim. O CDS foi o recurso para não votar em branco. Só voltei a estar perto de votar PSD com a política de verdade de Manuela Ferreira Leite, e depois talvez votasse no libertar o futuro de Paulo Rangel mas ganhou o Passos, e apostei n' este é o momento do CDS/PP.

 

Mal sabia eu, como já aqui disse, que este é o momento seria pior do que um banho de água fria, foi cair num buraco de água gelada num glaciar: como podia ter sido tão ingénua? Só porque falavam na agricultura e na supervisão bancária?

Mas não se atiraram agressivamente aos mais fracos da população, aos RSI? Com um discurso moralista à Estado Novo? De uma mesquinhez tacanha esquecendo que os feirantes e os pequenos negociantes de rua praticam uma economia paralela de subsistência perseguida pela ASAE dos moderanaços socialistas da altura, que os arrastaram para a subsidiodependência? A economia paralela de subsistência não é muito mais digna do que viver de subsídios estatais?

A verdadeira fuga ao fisco, a dos grandes grupos profissionais e empresariais está aí? Não está! Mas dessa não nos falaram.

Os sinais de um elitismo cultural, de desejo de pertença a uma classe de privilegiados, de um moralismo saudosista e tacanho, já estavam todos lá e eu não os consegui identificar.

 

Foi apenas quando assisti a esta cooperação de dois anos em que mantiveram um silêncio cúmplice e oportuno com um núcleo de gestão política (PM-ministro das finanças) que iniciou uma guerra de destruição maciça à economia, ao trabalho e à dignidade de vida dos cidadãos, que finalmente percebi e identifiquei a sua verdadeira cultura de base. Só alguém com uma cultura de base muito pouco democrática, para não dizer mesmo anti-democrática, poderia ter pactuado com este plano de desvalorização do trabalho e perseguição aos mais vulneráveis, mantendo intocáveis os grandes interesses e as excepções aos cortes. Fiquei sem partido em que votar, portanto. 

 

Qualquer cumplicidade estratégica com o núcleo PM-ministro das finanças será recordada na história do país.

Considerar-se agora que o CDS, depois de dois anos de cumplicidade com esta tragédia económica e social, pode agora surgir como um possível partido de coligação com o PS, por exemplo, é um atentado à nossa consciência cívica.

Vão primeiro aprender o que é a democracia de qualidade, e já agora como TPC:

a) tentar viver com o RSI ou o SMN;

b) sobreviver 6 meses na China rural, na Índia urbana, no Bangladesh fabril, para ver que modelo de economia competitiva nos estavam a preparar;

c) passar uns dias sem pequeno-almoço e ir para a escola ou ir à farmácia e ter de escolher entre que medicamentos levar para casa.

 

Quanto ao actual "novo rumo" do PS, terá de fazer um compromisso com os cidadãos e não configurar apenas uma forma airosa do sistema (o regime, as actuais elites no poder) se reorganizar novamente para tudo ficar na mesma paz podre

Como já aqui disse, terão de convencer os potenciais eleitores que podem confiar neles, que não serão traídos de novo.

Ainda estão por esclarecer as responsabilidades da gestão do anterior governo PS na situação financeira-limite a que se chegou há 2 anos.

Ainda está por perceber o papel dos mercados financeiros, do BCE (Constâncio foi promovido após não ter supervisionado nada), da banca (BPN), dos grandes grupos económicos, da CE, do PR, do PSD (Passos já andava a preparar a sua carreira no poder durante a liderança de Manuela Ferreira Leite), etc.

E finalmente ainda está por provar até que ponto a cultura de base deste "novo rumo" é um caminho de reabilitação para a tal democracia de qualidade.

Também vão precisar de apoios supra-nacionais, europeus e outros. Mas deverão manter os cidadãos devidamente informados do que está em causa, de forma frontal e com coragem, sem evasivas nem teatros. 

 

Quanto a possíveis coligações:

É melhor um governo com uma agenda limpa, clara e transparente, que vai gerindo o país com acordos parlamentares e negociações com representantes dos trabalhadores, empresários, industriais, etc. e com associações e movimentos da sociedade civil, do que se deixar enredar em jogos políticos que só debilitam a confiança dos cidadãos nos políticosRespeitar a inteligência de quem se representa é fundamental.

 

 

 

Para finalizar este post com uma amostra da inteligência distante, indiferente e metálica do núcleo que nos governou estes dois anos, de forma a melhor se perceber como se pode destruir com powerpoints e excell, trago aqui uma cena de um filme que já tinha colocado na Farmácia Central. Através desta cena vão perceber melhor como funciona a cabeça do protótipo tecnocrata, seja o ministro das finanças seja um elemento da troika, do FMI, da CE. A distância emocional e monocórdica são próprias de uma inteligência artificial só comparável a um robô:

 

 

 

Nota de esclarecimento em 2 de Junho de 2014: Este ano vi tanta coisa que era inevitável uma mudança na minha perspectiva do grande plano. O mesmo é dizer que não fica incólume a tanto atropelo à justiça, à equidade, ao equilíbrio de poderes, a uma cultura democrática, ao simples e saudável bom senso. O impacto de tudo a que assisti com este governo-troika foi tal que posso mesmo dizer que fiquei vacinada de forma vitalícia contra o centro direita. Ou se tem uma cultura democrática ou não se tem, ou se têm valores cristãos ou não se têm. O centro direita ou direita ao centro é um tremendo equívoco cultural e político.

Foi também a observar as personagens actualmente no poder que fiquei esclarecida relativamente à minha visão idílica da primavera marcelista: sim, havia católicos progressistas e intelectuais com uma visão mais aberta do mundo, mas o sistema estava blindado como este está actualmente e não se iria abrir a uma democracia como cheguei a idealizar.

Dá-me a sensação que terei ainda de introduzir muitas notas de esclarecimento em diversos posts sobre assuntos-chave. Não quero contribuir para mais equívocos culturais, mesmo que se trate apenas de uma análise individual. 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:25

Mulheres na política activa e a necessidade de actualizar a percepção da realidade

Terça-feira, 14.05.13


Hoje trago mais um exemplo de uma mulher na política activa: Elizabeth Warren, senadora dos States.

Quando destaco o papel das mulheres na política activa não é no sentido de uma competição com os homens na política activa, mas para valorizar o seu lugar e o seu papel nas decisões que têm uma influência enorme na vida das pessoas.

Como neste caso desta senadora que exprime o que muitos homens não têm interesse nem coragem de referir: Wall Street continua a ser favorecida relativamente à vida dos cidadãos que trabalham, neste caso específico, ao futuro dos jovens estudantes. A finança continua a sobrepor-se à economia.

Aliás, esta rendição governamental ao poder da finança já tinha sido percebida quando se correu a salvar os dinossauros da falência sem lhes ser exigido nada em troca. Quem acabou por ficar a pagar foi a economia e o trabalho.


Matt Damon já tinha revelado o seu descontentamento com esta faceta oculta de Obama, que tanto decepcionou quem nele esperou a tal mudança (we can change... we can change... we can change) para ficar tudo na mesma. As suas opiniões levaram-no mesmo a ser ridicularizado pelo próprio Obama. Ridicularizar, humilhar em público é, aliás, uma das estratégias da linguagem do poder. Em vez de responder directamente ao que está em causa, atira-se ao lado.


É interessante também acompanhar o que alguns analistas têm verificado: os democratas no poder conseguem ser piores para a economia e o trabalho do que os republicanos, no sentido da rendição governamental a Wall Street. Alguém chegou mesmo a dizer que há reformas que só com o sorriso dos democratas conseguem ser aceites, isto é, nunca passariam com o discurso seco dos republicanos.

Aqui sorriso = capital que ainda resta da credibilidade, o que ainda é percebido como sendo a cultura de base dos democratas, isto é, defender as pessoas, o trabalho, as minorias, os mais frágeis da sociedade, perante os grandes grupos económicos e financeiros. Ironicamente, dizem os especialistas que foi com Bill Clinton que se acelerou a desregulamentação do mercado financeiro: Wall Street tomou conta.


Cá está um dos grandes enganos da política: a percepção da realidade terá de ser sempre actualizada com a observação da acção política concreta.


 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:23

Resultados da aplicação da austeridade na economia, no trabalho, na emigração, nos serviços sociais, na democracia: o caso da Hungria

Domingo, 12.05.13

 

De vez em quando assisto ao programa Sociedade das Nações da Sic Notícias, e desta vez acompanhei com interesse a entrevista a Viktor Orbán, 1º ministro da Hungria. Primeiro fica a imagem de alguém que gosta de liderar e controlar, alguém que discursa com entusiasmo, desvalorizando a oposição interna, sobre a forma como se adaptaram às exigências do FMI, uma nova Constituição (aqui senti um arrepio), um imposto único de 16 % igual para todos (?) para não penalizar o trabalho, preferindo subir o IVA (!), taxaram a banca (ver para crer), as multinacionais (ver para crer), reduziram os deputados para metade, os políticos no activo para metade, etc.

Ao ouvi-lo ficou-me a ideia de uma sacudidela demasiado drástica para animar a economia. Alguma coisa me soou a marketing político e não a liderança democrática, embora o entrevistado se tenha mantido num discurso racional, sensato, moderado. No entanto, há frases que nos ficam a ressoar de forma incómoda: a Europa tem tido lideranças institucionais que não têm capacidade de resposta, agora precisa de lideranças pessoais, de líderes; as fronteiras não devem ser o mais importante, já perdemos parte do território depois da 1ª Grande Guerra e mais território depois da 2ª guerra mundial; os nossos valores baseiam-se no cristianismo (é muito vago).

 

Não inteiramente convencida com tanta competência auto-proclamada, fui procurar outras fontes de informação. Passei pela BBC Hard Talk mas só encontrei uma entrevista a um especialista de marketing político do governo, o ministro da Comunicação(!) que se defendeu muito bem. Em todo o caso, reparem como o ministro acaba por utilizar palavras como oportunidade, reformas estruturais, medidas, com as quais já estamos demasiado familiarizados.

Resolvi procurar melhor no youtube informação concreta sobre a vida diária das pessoas:

 

 

Como se pode verificar, a estabilidade que uma maioria promete, pode levar a excessos na aplicação de programas como este da austeridade. Parece ter sido o que aconteceu aqui, a começar por construir uma nova Constituição (apenas em 9 meses e sem a participação de todos). Sempre que os governos nos falarem na Constituição, já sabemos o que se segue. Por cá esse discurso da necessidade de modernizar a Constituição e adaptá-la a uma nova conjuntura tem sido contrariada. Reparem nos riscos destes atropelos à Constituição de um estado. É por onde tudo começa no caminho da anulação da democracia e da utilização dos mecanismos democráticos.

Reparem como o estado social, os serviços prestados aos cidadãos, foram quase liquidados. São as pessoas que sofrem. A economia não está a crescer, mesmo com o imposto único, aumentando a divergência entre pobres e ricos (ou melhor dito, remediados, que preferem poupar a consumir).

E reparem como a banca não perde, antes ganha com estes planos de austeridade, pelo menos por enquanto.

Quanto aos media, por cá ainda não temos esse problema, cá as pessoas são inundadas com ficção informativa e opiniões de comentadores e futebol e telenovelas em doses apropriadas em todos os canais de televisão.

 

Porque me interessei tanto por analisar a situação da Hungria?

Primeiro, pela semelhança da sua gestão política mais recente com a nossa: governos socialistas levaram 2/3 dos cidadãos do país a votar numa proposta de centro-direita que os ajudasse a sair da falência. O programa seguido por este novo governo que, tal como o nosso, quis ir para além do FMI, acabou por se revelar desastroso para o seu povo.

Segundo, porque admiro muito o povo húngaro, a sua coragem e amor pela liberdade. Já aqui lembrei a resistência à invasão soviética no documentário Fúria da Liberdade. Um povo assim, que tem a liberdade no seu ADN, é um povo que não se deixará intimidar ou controlar, apesar das condições difíceis que lhe estejam a impor.

 

 

Já iniciei esta viagem virtual pelos países europeus em apuros, com a Grécia, na Farmácia Central e nas Vozes Dissonantes. A seguir, talvez vá até ao Chipre, à Eslovénia, à Irlanda e depois aqui ao lado, à Espanha.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:10

A percepção da realidade de uma consciência abrangente

Quinta-feira, 09.05.13

 

Uma capacidade humana é a de aprender, abrir os horizontes, mudar a sua percepção da realidade, isto se estiver receptiva e curiosa em relação a tudo o que a rodeia, às pessoas concretas, às comunidades, à forma como se organizam.

Sempre me interessei pela análise da cultura de base de indivíduos e grupos, de empresas, de partidos políticos, de governos, das lideranças de grandes organizações (como a UE, por exemplo).

A minha análise está mais virada para a influência da cultura de base na intervenção política ou na intervenção financeira, pois tem um peso determinante na vida das pessoas.

 

Mantenho actuais algumas das minhas análises: a guerra do Iraque, por exemplo, que considerei uma invasão sem qualquer justificação possível. Participei em 2003 na manifestação em Lisboa. Antes dessa, só tinha participado na vigília por Timor. Depois dessa, só numa mini-manifestação (por falta de comparência de muitos) pela liberdade de expressão.

 

 

Análise da cultura de base do anterior governo PS:

 

Embora hoje já tenha mais elementos de comparação entre a gestão do anterior governo com a do actual, ainda mantenho o essencial da análise da cultura de base do anterior governo: cultura corporativa (grandes grupos económicos e financeiros, a banca, os grandes negócios). O seu estilo era, no entanto, modernaço: o deslumbramento pueril de um modernismo dispendioso, a desorçamentação, as PPPs, as fundações, os institutos, os estudos disto e daquilo, o TGV e o novo aeroporto, a ausência de supervisão bancária com o resultado desastroso.

Verificou-se a prioridade da imagem sobre a realidade concreta, a sociedade-espectáculo em powerpoint, o perfil do urbano moderno, rico e famoso como o exemplo de sucesso a seguir, a promoção de uma vida saudável e acéptica, as causas fracturantes, a aceleração do abandono do interior do país só lá colocando as hélices de uma energia verde para contribuinte pagar, o desprezo pela agricultura e pescas, pela terra como fonte de autonomia alimentar.

Verificou-se o aumento da diferença entre ricos e pobres, o aumento do desemprego e da emigração, números que nunca foram devidamente contabilizados. Foi também o início da desintegração social, a perseguição da ASAE aos feirantes e pequenos negócios de rua, preferindo ver essas pessoas a viver na dependência de subsídios, o polémico RSI. Quanto à grande evasão fiscal, pouco ou nada.

Em todo o caso, o estado social, ou seja, os serviços públicos prestados aos cidadãos foram preservados dentro de alguma qualidade e segurança. Digamos que havia um limite que nem o anterior governo, já com a corda ao pescoço, teve a lata de pisar: o limite das regras básicas de uma constituição democrática. Apesar dos tiques de um certo autoritatismo e a tendência para controlar a informação, procurava-se pelo menos a eficiência dos serviços públicos, não a sua destruição e alienação como vemos agora acontecer.

Se esse caminho também iria ser percorrido se o PEC 4 tivesse passado? Não sei. É certo que já se falava na desvalorização do trabalho, Manuel Pinho foi vender essa ideia à China, António Borges penso que já andava a fazer a sua acção de evangelização, mas teriam ido tão longe como este governo?

 

 

Cultura de base do CDS:

 

Aqui confesso que a minha análise da cultura de base do CDS, que pensava democrata cristã, estava completamente errada. Aqui não tenho atenuantes, pois os sinais estavam todos lá, a sua marca registada de cultura corporativa de estilo profundamente elitista, de sentimento de pertença às classes privilegiadas, tal como no Estado Novo. Há ali um saudosismo desse respeitinho quando falam de uma tradição caduca e ultrapassada.

Um dos sinais a que não dei o devido valor, mas já estava tudo lá, foi a sua perseguição ao RSI no período do anterior governo, quando se deu início à tal desintegração social através da perseguição da ASAE aos feirantes e pequenos negócios de rua de que falei lá atrás, que acabou por colocar essas pessoas a viver na dependência de subsídios. Foi nesse processo do RSI que eu vi a face mais mesquinha e moralista da cultura corporativa: primeiro os modernaços do PS retiram-lhes a sua forma natural de vida, de uma economia paralela de subsistência, para os colocar na subsidiodependência e, com isso, retirar-lhes a dignidade e autonomia (vítima uma vez), para depois serem culpabilizados por políticos moralistas do CDS como não querendo trabalhar e preferindo viver à custa do contribuinte (dupla vítima).

Podiam ter começado, pelo menos, por exigir com o mesmo entusiasmo a fiscalização da grande evasão fiscal, pois é essa que vale não sei quantos mil milhões.

Mas honra lhes seja feita, falaram na agricultura (que agora esqueceram) e na ausência de supervisão bancária.

 

Esta minha súbita lucidez tem um sabor amargo: o meu equívoco levou-me a apostar num Momento e a contribuir, embora à minha pequena escala, para a emergência de uma cultura que não se fica por não ter assimilado e interiorizado as regras da democracia, mas por ser mesmo anti-democrática.

Afinal Este é o Momento em que acreditei (valha-me Deus!), era o momento da compensação desejada, não no sentido de vingança propriamente dita, mas de uma certo ajuste de contas com a história. Ao lado de Durão Barroso e de Santana Lopes isso não foi visível porque havia Bagão Félix como mentor e símbolo moral da cultura verdadeiramente democrata-cristã. Mas agora não há Bagão Félix no governo e Passos Coelho está longe de ser um Durão Barroso e não tem a natureza empática e tolerante, próprias de uma cultura democrática, de Santana Lopes. Assim, os CDS, em roda-livre, revelaram a sua verdadeira natureza.

E ainda conseguiram ultrapassar um limite moral que nunca julguei possível: desprezar os mais fracos (reformados) colocando-os no joguete político para tentar salvar o seu peso eleitoral. Os reformados não precisam nem de paternalismo nem de caridadezinha, precisam de respeito, tal como qualquer cidadão. Mas isso eles não conseguem entender ou aceitar. Para isso, era preciso interiorizar a cultura democrática e estão muito longe de o conseguir.

 

 

Cultura de base do PSD:

 

Também aqui me enganei: embora não me tenha apanhado de surpresa na cultura corporativa de base, o PSD conseguiu ultrapassar todas as minhas expectativas. A sua cultura de base não é apenas corporativa semelhante à do anterior governo (grandes grupos económicos e financeiros, a banca, os grandes negócios). É que o anterior governo, apesar de bom aluno de Bruxelas, queria pelo menos andar para a frente, para um futuro cibernético, de uma economia virtual, de energia verde, da internet, da investigação, da educação de sucesso para todos, das novas oportunidades, puxar pelo país, de um país práfrentex, do simplex (algumas destas iniciativas até tinham algum mérito, nem que fosse só nas suas boas intenções).

 

Onde o PSD me surpreendeu é que, em vez de se virar para o futuro se tenha virado para o passado, para um tempo semelhante ao do Estado Novo, e de não ser apenas um bom aluno de Bruxelas, é um clone dos tecnocratas de Bruxelas, um robô-tecnocrata de Bruxelas. Na verdade, a troika nem precisava de se dar ao trabalho de cá vir, devem ter de se vir mostrar nos corredores do poder só para assustar os portugueses e convencê-los que eles são a troika. A troika já cá estava antes da troika descer do avião

Claro que também me conseguiu surpreender e apanhar de surpresa quando, em vez de cortar nos mais fortes, começou logo a cortar nos mais fracos e remediados. Assim como o facto de reduzir a sua intervenção ao ministério das finanças e a cortes disto e daquilo, parecia o Eduardo Mãos de Tesoura.

Não sabia que gerir um país era colar-se às exigências dos credores, ficar do lado dos credores, associar-se aos credores, contra os seus conterrêneos, chegando ao cúmulo de se identificarem culturalmente (nos preconceitos norte-sul da Europa) e moralmente (culpando as pessoas da má gestão política e financeira) com os nossos credores, para assustar e manter em suspense os seus conterrâneos.

O resultado é a liquidação dos serviços públicos (talvez um sonho antigo, estilo Margaret Thatcher), depois de terem destruído a economia nacional (micro, pequenas e médias empresas).

 

 

Gerir um país é isso? Cortar aqui e ali? 

Pensava que gerir um país era dar o exemplo, nisso até Salazar era melhor. 

Pensava que gerir um país, era contar a verdade às pessoas, a dimensão da dívida, a origem da dívida, a natureza da dívida. E isto por montantes exactos.

Depois, informar as pessoas sobre as exigências dos credores e explicar as suas razões.

A seguir, informar sobre o que iriam fazer para minimizar os danos na economia e na vida das pessoas e das famílias, como iriam tentar negociar na Europa melhores condições para o seu país e os seus conterrâneos.

 

 

 

Esta é a minha análise, ainda por verificar e validar, relativamente ao governo:

 

O que os cidadãos vêem como insucesso, este governo vê como sucesso: é o desemprego e a emigração que permitem a desvalorização do trabalho, pois o investimento privado que querem atrair baseia-se em mão de obra barata e trabalho precário.

Esse é o modelo de país que serve os grandes grupos económicos e financeiros que por cá passarão enquanto for rentável para depois irem sugar outros países e outros recursos.

 

Este é também o modelo de Europa que os tecnocratas desenharam, com diferenças norte-sul, países de 1ª e de 2ª. Para conseguirem o controle absoluto (onde cabe aqui a democracia e os cidadãos?) têm de conseguir o controle fiscal (!) e político (!!) dos países da eurozona.

 

 

 

E ainda falta a análise da cultura de base do PCP, do BE e dos Verdes:

 

Esta análise é a mais difícil, em parte porque ainda não fizeram parte de nenhuma equipa governativa, a não ser o PCP no verão quente e com Vasco Gonçalves.

Já tinha lido alguns livros na Primavera marcelista para saber que a organização colectivista, aplicada a uma comunidade e a uma cultura, nega a própria natureza humana: a diversidade desejável, a criatividade, a rebeldia, a vitalidade.

Posso é já adiantar, mas está por testar, que a expressão eleitoral estável do PCP se explica não apenas pela cultura corporativa do PSD, PS e CDS, mas também pela forma como gerem o poder, cada um ao seu estilo: tecnocrata autoritário europeísta do PSD; gestão pública danosa do PS; e o elitismo tradicional moralista do CDS.

 

Talvez também por estas razões o BE chegou a ter uma expressão eleitoral significativa e actualmente volta a estar a subir na simpatia dos potenciais eleitores.

Do BE recordo o papel importante de Miguel Portas, não apenas como eurodeputado, mas como homem do mundo, da nossa universalidade, qualidade tão portuguesa e talvez inigualável. Os seus documentários eram verdadeiras aulas de história das culturas.

Francisco Louçã está a revelar-se melhor comentador-professor-escritor do que deputado. E a entusiasmada Catarina Martins, agora mais calma, tem revelado empenho e entusiasmo nas suas intervenções. 

Quanto à sua cultura de base, consigo para já identificar a rebeldia, o seu protesto contra uma tendência corporativa mundial dominada pela finança.  Essa tendência hoje é visível. Só recentemente compreendi a razão dos seus protestos nas reuniões do G8 e do G20, que antecederam as transferências de capital da economia e dos contribuintes para os grandes bancos, que por sua vez antecederam as actuais reuniões e intervenções das troikas e dos tecnocratas de Bruxelas. Também só recentemente compreendi o movimento Occupy Wall Street. Enquanto esta perigosa concentração de poder das corporações e da finança se mantiver a nível europeu, reflectindo-se nos países do sul e do leste, o BE terá expressão eleitoral, independentemente da sua ideologia política estar ou não datada.

 

Os Verdes são os Verdes, iguais a si próprios desde que ouço Heloísa Apolónia nalgumas das suas intervenções. Certeira no diagnóstico, estilo provocador, actualmente mais conciliatória talvez por perceber que a nossa situação é mesmo de emergência.

 

 

Digamos que actualmente quem diagnostica melhor a realidade pode não estar ainda preparado para propor o melhor caminho, mas a percepção da realidade já é um passo.

A sociedade civil está muito mais atenta, também é nela que vemos a vitalidade e criatividade da mudança cultural para uma democracia de qualidade, uma sociedade inteligente, aberta, criativa, tolerante, inclusiva.

E os jovens são os que estão melhor posicionados para dinamizar os movimentos cívicos: por uma economia da colaboração, liberta de constrangimentos, nas áreas que nos permitem autonomia alimentar, industrial, energética, tecnológica, da investigação científica. E por uma sociedade em que todos tenham acesso à saúde de qualidade e à educação de qualidade. 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:28

As mulheres e o seu papel fundamental nos valores culturais de uma comunidade

Domingo, 05.05.13

  

Este post é dedicado às mulheres, às mulheres que seguem os valores da verdadeira responsabilidade por si próprias, pela defesa do seu lugar e papel numa comunidade e país, na forma como lidam com os mais próximos, pelos valores que transmitem aos filhos.

 

Contrariamente ao que se julga, aceitar a própria vulnerabilidade e desamparo, é o primeiro passo para a verdadeira autonomia. E é a forma saudável de não se deixar entalar no papel de vítima.

A vítima receia o agressor, é o medo que a transforma numa vítima.

Quando uma pessoa aceita a sua própria fragilidade e é capaz de ultrapassar a tentação de se identificar com os falsos heróis como compensação, torna-se mais forte e vacinada contra a vitimização (conformismo).

É na sua capacidade de empatia com os outros seus iguais no desamparo e na fragilidade, próprias da sua humanidade, que se torna mais forte e vacinada contra a lógica da violência, a sedução de discursos competitivos e bélicos, e distingue perfeitamente a mentira (artificialidade) da verdade (autenticidade).

 

A história está cheia de mulheres que seguiram a lógica do poder através do filho, incutindo-lhe os valores da cultura do egocentrismo, do culto do herói, da competição em que só o mais forte sobrevive. No fundo, o seu amor maternal é contaminado e adulterado pela manipulação, pela linguagem do poder. Assim se explica o sentimento de posse, o filho é um prolongamento de si, não é um ser livre.

Também o fazem através do exemplo que dão às filhas, de alguém que se rendeu à lógica do poder e o utiliza na forma em que se tornou especialista: na manipulação, no sentimento de posse. As filhas, também elas, se renderão ao culto do herói (e da heroína que o manipula).

Hoje vemos uma transição: enquanto as suas mães utilizaram a sua imagem (aprovação social) e culpabilizaram os homens e filhos de não serem suficientemente homens, de não conseguirem a tal promoção, etc, exibindo o homem e os filhos como troféus, as suas filhas levaram esta cultura mais longe utilizando-a na promoção da sua carreira profissional, mimetizando o papel competitivo masculino.

 

Se estas foram as únicas possibilidades de sobrevivência das mulheres num mundo masculino? Certamente. Mas será que hoje a lógica do poder e da manipulação são formas saudáveis de afirmação do papel da mulher?

Lembrar que hoje temos um lugar e um papel na comunidade, podemos intervir e participar, porque muitas mulheres se colocaram em perigo e foram afirmando a sua voz sem seguir a lógica do poder, sem perder a capacidade de empatia e compaixão.

As mulheres podem participar numa mudança cultural profunda, tal como esta corajosa advogada iraniana Shirin Ebadi:

 

 

 

 

As mulheres podem perpetuar a linguagem do poder masculina através da influência cultural sobre os filhos, nos rapazes sobretudo, mas também nas filhas, ou podem romper com essa lógica dominante e cultivar a cultura da colaboração, do respeito por si próprio e pelo outro, da empatia e compaixão, da verdadeira autonomia.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:42

A música e a vida: o melhor de nós

Quarta-feira, 01.05.13

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:05








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